Parte de um conto
Erich Johanson, 55 anos, Califórnia. Acabou de perder o emprego e decidiu dar a si mesmo sua tão merecida e sonhada férias no Brasil. Resolveu, então, procurar infromações sobre hotéis pela internet. Depois de repensar sua condição financeira, apurou a busca e foi atrás só de hotéis três estrelas, pensões e chegou, enfim, a um site que lhe satisfazia a procura.
Na segunda página havia um anúncio discreto, mas que ainda assim foi capaz de lhe chamar atenção. Com dificuldades, leu o nome do hotel. Depois, isto sim já em inglês, o anúncio falava sobre o local e o que de melhor tinha por perto. Muito contente com a descoberta, pegou o número do telefone e ligou:
- Agência Bom Lazer, bom dia – disse uma voz feminia em tom amuado.
- Erm… I’m… Do you speak english? – perguntou Erich.
- Yes, I do. Can I help you ? – dessa vez a voz pareceu um pouquinho, mas só um pouquinho mais interessada.
- I’m going to Brazil and I’d like to stay at Comun… Comuni… Cómunidadji Hotel.
Um minuto de silêncio do outro lado da linha. Erich ficou preocupado, mas se ele estivesse vendo a movimentação a quilômetros de distância teria percebido que a atendente não tinha morrido.
- Hello? Hello? – dizia o homem.
Eis que, assim como ficou muda, a mulher voltou a falar… e com uma simpatia ofertada pelos deuses.
- Mr. …
- Johanson. – ele complementou.
- Mr. Johanson. What a pleasure!
Então sucedeu que a operadora de viagem desatou a falar sobre o hotel. Disse que era algo inovador, despojado, feito para homens e mulheres que gostam de viver a vida plenamente, que gostam da aventura. Erich repensou sua vida chata de escritório e viu como aquela hospedagem tinha vindo mesmo a calhar.
Logo que pisou em terras brasileiras, foi procurar o motorista que estava encarregado do seu transporte. No salão, vários motoristas estendiam plaquinhas com os nomes de seus cliente. Ele foi procurar o dele. Primeiro, um sujeito alto, vestido em paletó preto, gravata vermelha, quepe e um pequeno broche com o nome do hotel. Segurava uma placa que dizia: Mr. Brooks. Não era aquele. Depois, um baixinho, gordinho e careca de meia idade, enfiado em um terno azul marinho segurava uma placa com um nome para lá de estranho. Continuou procurando quando seu olhos encontraram uma placa com seu nome… ou coisa do gênero. Seguiu a mão que a segurava e chegou em um rapaz moreno, magrelo, perdido dentro de uma camisa que mais parecia um abadá do Babado Novo e calças cáqui. Pensou no despojado.
O rapaz ao perceber que era aquele o gringo esperado, sinalizou e foi em frente. Erich saiu correndo atrás dele, esbarrando com suas malas em outras pessoas. Chegou à saída do aeroporto e lá estava o rapaz, encostado em uma moto, com cara de tédio. Ao ver a expressão nos olhos de Erich o garoto logo se defendeu.
- Oh, meu tio. Precisa ter medo não. Sou fera… e essa mala, dá sim. Quer ver?
Puxou a mala das mãos de um estupefato Erich e começou a enrolar ela com um elástico. Se certificou que estava bem segura na parte mais extrema da moto, subiu, ligou o motor e… teve que olhar para Erich com aquela cara de ‘dá prá subir logo’.
A viagem foi emocionante. Cortavam carros, furavam o sinal vermelho enquanto Erich tentava se manter colado na moto. Passaram por dois minutos na orla. Mais tarde, conforme subiam a rua, o piloto foi diminuindo a velocidade até parar na frente do Comunidade Hotel.
Ao entrar no lobby do hotel, reparou em seus detalhes: uma sala ampla, circundada por um mesanino onde várias portas eram vistas. Foi até a recepção.
- De vauchi!
Erich não entendeu nada e ficou olhando com a cara indagadora.
- Mermão, o vauchi. – Disse o negro apontando para o papelucho na mão de Erich.
- Ah! – e estendeu o papel ao recepcionista.
Depois de conferir o papel, o recepcionista sorriu para o hóspede.
- Óquei!
- Erm… the room service? – Erich perguntou duvidando que o outro fosse entender.
- De o que? De rum service? Rum… Ruim?! Não! Que isso meu camarada – dizia enquanto dava a volta pelo balcão e passava um braço pelo ombro de Erich – ! Te garanto que o serviço aqui é de primeira. Fãrsti Cualiti! Inclusive, se o senhor quisé, aparece ali em cima – e apontou para o mesanino – e grita ‘Tonhão’ que a gente vê o que o senhor quer, leva no quarto e tal… E, veja só. Tá na suíte. Gostosão!
Então, chapou a chave na mão de Erich e deu um tremendo assovio.
- Ô, braquelo! Vem pegar aqui as malas do cliente – disse já se virando novamente para Erich. A porta tá com um probleminha, lito problém, mas é só o senhor empurrar. Pur de dór. Pur...
Definitivamente aquele era o hotel mais estranho em que Erich se metera. Foi para o seu quarto, estava afim mesmo era de descansar das horas de viagem. Chegando lá, viu uma cama de casal, a seu lado uma mesinha com um abajour e uma gavetinha repleta de camisinhas e anúncios do tipo ‘club 510′ e uma cômoda onde guardou as coisas.
A noite passou e o dia veio. Erich acordou ao som de carros passando, gente falando alto… Foi ao banheiro, um cômodo que deveria medir uns dois metros quadros e meio, ornado com um vaso sanitário branco, com uma caixa d’água daquelas externas, uma pia branca com uma torneira de plástico. Lembrou-se que veio em busca de aventura… e que lugar inóspito e aventureiro era aquele!
Estava descendo as escadas quando Tonhão anunciou o cófi breiqui. Erich entedeu perfeitamente, mais por conta do estado em que estava seu estômago. Era café preto, pão na chapa com manteiga. Tinha presunto, queijo minas, bolo de fubá, biscoito recheado, banana, melancia e danoninho. Optou por um café, só.
Tonhão logo apareceu.
- É gringo, tem só você aqui no nosso cafofo… Hotel. Então o tur citi vai ser só nosso. De tchu ov ãs… iu e ai.
Foram, então, à Copacabana e viram o mar. Mas, por sugestão de Tonhão, foram pegar uma praia em Niterói. Foi em Itaipú que Tonhão fez Erich se empanturrar de camarão no palitinho, sanduíche natural e queijo quente. Estavam contentes até. Era uma boa maneira de ver o Rio que ficava lá do outro lado.
No final do dia, completamente bêbados, Tonhão e Erich já se entendiam como se fossem, respectivamente, as versões contemporâneas de Shakespeare e Camões. Riam até de piadas que não entendiam.
- E ai a velha disse para o velho: é a camisola do amor.
Hahahaha por parte de Tonhão. Hahahaha por parte de Erich.
Belo texto. Gostoso pra ler. Aquele que desejamos encerrar para desvendar o final da história. Muito legal.
dê uma passadinha no meu:
http://www.antologiaracional.com/
parceria??
Desculpe, mas eu morri de rir com este post.
E porque tem muito de verdade nele.
Ainda bem!
Você sabe como prender a atenção do leitor, apreciei muito o seu Conto, continue assim!
Beijos!
http://www.copiatudo.wordpress.com
Post de muita qualidade, gostei muito. A história realmente envolve. A por favor, dê uma comentada no meu depois. Abraços, voltarei sempre
http://complexyx.blog.terra.com.mx
Bom texto
conseguiu segurar a leitura até o final e ], principalmente, com prazer…
parabéns
Meu deus, estou mais que completamente familiarizado com o seu blog, parece que ja esse filme, mas sob uma ótica lemente inversa. Excelente texto!
Ótimo texto, é dificil eu ler um e gostar mas este é muito bom!!!
Abraço
Eu sou daqueles que le o texto ate o final, geralmente acho todo legalzinhos, mas gostei muito do seu, da vontade de ler ate o final para saber o fim da historia, espero que publique mais historias desse tipo
muito engraçado….rsrsr
adorei….
Muito bom .. Adorei..
rsrsrsrsrs
O final desse Conto é surpreendente heim, gostei muito.
http://www.copiatudo.wordpress.com
gostei do início ao fim, até por que, já coisas semelhantes…
Adorei xD
Deve ter sido um dia e tanto pro Erich!
Eu passei quase um ano no Canadá aprendendo inglês, o que eu mais ri foi dos brasileiros falando em inglês xD Eu só lembrava dos conterrâneos que estavam em uma classe menos avançada, eu ria demais!
(muito feio rir do erro alheio, mas não dava pra evitar)
Adorei !
Muito bom o texto! Gostoso de ler, leve, humorado e criativo. Parabéns!
bjão